Quer saber um pouco mais sobre a produção de couro vegetal?

Quer saber um pouco mais sobre a produção de couro vegetal? Confira a matéria da SETA publicada na revista World Leather na edição Junho/Julho de 2020.

Para um visual natural

Seta S/A foi a pioneira no Brasil na produção de taninos de acácia-negra com o início das suas atividades em 1941, no município de Estância Velha/RS.  Hoje a empresa produz e comercializa extratos de acácia-negra em todo o mundo, não só para produzir couros, mas também para outros usos, como tratamento de água e esgoto, nutrição animal, adesivos e dispersantes. Outro fator importante em relação à produção desses extratos é o fato de que árvores reflorestadas retornam ao solo importantes nutrientes, recuperando áreas para futuras plantações de acácia-negra ou mesmo outras culturas de plantas.

Embora presente na maioria das plantas, extratos de tanino vegetal são apenas comercialmente viáveis a partir de certas espécies. Os mais conhecidos e usados são extraídos de quebracho, castanha e mimosa, esta última tendo o maior volume comercial global devido à sua versatilidade. Cada extrato tem suas próprias características, mas, historicamente, cada país tinha preferência por extratos disponíveis localmente. Atualmente, com a globalização, os curtumes podem escolher usar esses extratos em combinação no mesmo processo de curtimento, dependendo das características desejadas.

Mimosa e sustentabilidade

Mimosa, também conhecida como wattle, é extraída da casca da árvore de acácia-negra, uma espécie encontrada apenas em latitudes inferiores a 30 graus no Paralelo Sul, que passa pelo estado do Rio Grande do Sul no Brasil, África do Sul e Austrália. Entre os extratos citados, apenas a acácia da mimosa é 100% produzida de reflorestamento controlado e com certificação ambiental internacional. A sustentabilidade é baseada em princípios simples: tudo o que precisamos para nossa sobrevivência e bem-estar depende, direta ou indiretamente, do nosso meio ambiente natural. Para buscar a sustentabilidade, é necessário criar e manter condições nas quais os humanos e a natureza convivam em harmonia, para que as futuras gerações também possam desfrutar do que temos hoje. As indústrias de couro têm trabalhado intensamente em seus processos de produção para reduzir o impacto no seu ambiente, buscando uma fabricação mais limpa. Nesse contexto, o curtimento vegetal é ainda mais importante nesta indústria.

Taninos e como eles são usados

Os taninos são compostos polifenóis e estão presentes naturalmente nas cascas, caules, raízes, folhas e frutos da maioria das espécies. A ação dos polifenóis do tanino depende da massa molecular e dos grupos hidroxila (-OH). Existem dois tipos de taninos encontrados na natureza, taninos hidrolisáveis (pyrogallol) e condensados (catechol). Exemplos de taninos hidrolisáveis são os extraídos da madeira de castanheiro e frutas mirabolanas. Os principais taninos condensados são extraídos da madeira do quebracho e da casca da árvore de acácia-negra. 

Os taninos são extraídos com água quente, formando um licor com baixa concentração e depois concentrado pela evaporação do excesso de água do licor. Embora este licor já possa ser usado no processo de curtimento, a maioria dos extratos comercializados passam pelo processo de atomização para que eles possam ser usados na forma de pó, facilitando transporte e manuseio.

Processo de curtimento

Nos estágios anteriores ao curtimento vegetal, as peles seguem a usual sequência de imersão, remoção do pelo e caleiro (onde os pelos são removidos e o caleiro abre as fibras) e divisão na espessura necessária. Antes de iniciar o curtimento, as peles precisam passar pelo processo de desencalagem e píquel para o ajuste do pH para que sejam capazes de receber os extratos curtentes. Contrário ao curtimento ao cromo, onde o píquel é feito com o pH reduzido para cerca de 3,0 antes de iniciar o curtimento, em curtimento vegetal o pH deve estar entre 3,8 a 4,5. A razão para começar o curtimento vegetal nesta faixa de pH mais alto é porque o tanino vegetal é fixado em o pH abaixo de 3,8 e acima deste pH o tanino pode penetrar na espessura total da pele antes do processo de fixação. A redução do pH é feita com o auxílio de ácidos.

Originalmente, o curtimento vegetal era feito em um processo estático, em uma série de tanques com diferentes concentrações de tanino, e que demorava meses sem uma ação mecânica para que os taninos penetrassem nas peles. Atualmente, alguns curtumes especializados em curtimento vegetal ainda usam esse sistema para a produção de artigos específicos, combinando este sistema com a finalização do curtimento com o uso de mais extratos vegetais em fulões, um sistema conhecido como tanque e fulão ou sistema misto. Há também uma terceira opção, um processo mais moderno conhecido como sistema rápido, onde apenas os fulões são usados, acelerando significativamente o processo do curtimento vegetal.

Com as peles em um pH ideal de 3,8 a 4.5, o curtimento pode ser iniciado, escolhendo usar agentes de pré-tratamento antes de colocar as peles em contato com os extratos vegetais. Em qualquer um dos três tipos de processo, o curtimento vegetal compreende dois estágios:

  1. Difusão – penetração/atravessamento dos extratos na estrutura da pele.
  2. Fixação dos extratos nas fibras do couro. Em ambas as fases, há importantes fatores que afetam o processo.

Na fase de difusão, os fatores são:

a)Concentração da solução de tanino – idealmente, tanto no estático quanto no processo rápido, a pele é progressivamente posta em contato com os extratos, começando com uma baixa concentração de taninos e aumentando gradualmente até alcançar uma concentração mais alta, que fornece a desejável penetração. Baixa concentração de taninos ajuda a penetração e muito tanino pode fornecer um curtimento de superfície, que prejudica o atravessamento em toda a pele.

b) Tempo – quanto maior o tempo de contato do extrato vegetal com a pele, maior sua penetração. O processo estático varia de semanas a meses, e no processo rápido de algumas horas até dois ou três dias, dependendo da espessura das peles e outras condições.

c) Temperatura – o curtimento deve ocorrer à temperatura ambiente, entre 20-30°C. As temperaturas mais altas causam um aumento no tamanho das partículas, causando uma fixação superficial dos taninos, e prejudicando a penetração.

d) pH – o pH de 3,8 a 4,5 fornece ótima penetração dos extratos. Um pH mais baixo pode atrasar a penetração, causando a fixação de extratos na superfície do couro, tornando-o difícil de penetrar.

e) Sais neutros – um banho de taninos com grandes quantidades de sais pode atrasar a penetração dos taninos na pele, prejudicando o curtimento.

f) Tamanho da partícula – os taninos mais adstringentes têm um tamanho de partícula maior, tornando o atravessamento difícil. Portanto, o uso desses taninos mais adstringentes é optado após os taninos menos adstringentes que penetram mais rápido.

g) Efeito mecânico – quanto maior o efeito mecânico, mais rápido os taninos atravessam as peles, daí a razão pela qual o curtimento estático em tanques leva mais tempo. No entanto, no caso de fulões, uma velocidade menor é escolhida, por volta de 4 rpm, para evitar danificar as peles no contato entre as peles e o fulão. Outro fator é evitar maiores rotações que provocam um aumento exagerado da temperatura dentro do fulão, danificando o curtimento e as peles.

Na fase de fixação, os fatores são:

a) Concentração da solução de tanino – baixas concentrações de tanino causam menos fixação e vice-versa.

b) Tempo – quanto maior o tempo de curtimento, maior a fixação dos taninos nas peles.

c) Temperatura – o aumento da temperatura ajuda a fixar os taninos, mas deve-se tomar cuidado para não exceder 40°C para evitar a oxidação e escurecimento da superfície das peles. Em tanques, pode-se escolher banhos aquecidos no final do curtimento, aumentando a fixação.

d) pH – abaixo de pH 3,8 há uma maior fixação dos taninos. Portanto, no fim do curtimento, o ponto em que os taninos penetraram completamente nas peles, produtos ácidos são usados para fixar os taninos nas peles.

e) Sal neutro – banhos com muitos sais causam uma menor fixação dos taninos nas peles.

f) Tamanho da partícula – quanto maior o tamanho da partícula, maior será a fixação de tanino na pele. O pH e temperatura ajudam a aumentar o tamanho das partículas do tanino, causando a fixação. Além disso, taninos mais adstringentes têm o maior tamanho de partícula e maior poder de fixação. Depois que o tanino penetrou, a fixação com ácido pode durar 2 horas ou até a noite toda, dependendo das características do artigo. Artigos mais pesados, como couro de sola podem exigir um tempo de fixação mais longo.

Após este tempo, é aconselhável realizar uma lavagem rápida com água limpa para remover o tanino não fixado na superfície das peles e depois empilhar as peles por 2 dias, enquanto os taninos continuam a se fixar na estrutura da pele. Depois disso, as operações de estira são realizadas para eliminar os taninos não fixados entre as fibras das peles e a operação de dividir para controlar a espessura. Os couros então continuam o processo de recurtimento, tingimento, quando necessário, e engraxe. Após o engraxe, os couros estão prontos para secar. Primeiro, eles são estirados e podem ser secos normalmente, pendurados em salas de secagem. Outra forma pode ser secagem a grampo. O uso de secagem ou secagem à vácuo também pode ser usada para acelerar o processo de secagem, dependendo do artigo, mas cuidados devem ser tomados para os taninos não migrarem, o que pode levar à quebra de flor. 

Neste contexto, os taninos vegetais são de fundamental importância no setor coureiro. Além dos produtos serem ambientalmente sustentáveis, o processo de produção pode ser 100% seguro se os cuidados necessários forem tomados, já que couro curtido ao vegetal é facilmente degradado no meio ambiente.

 

Fonte:

– Revista World Leather. Edição Junho/Julho de 2020

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